quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Breque e erudição

  Sexta de uma semana cansativa, a qual fedia o suor que provocara. Tinha na testa ainda a marca do trabalho, e na mão a falta do pão que fora prometido. Dali se foi a vontade, o bom homem existe da negação da vontade, um budista disse. 

 - Por que partir?

 - Não vamos começar com isso agora.

 - Mas o que eu fiz pra você querer ir embora?

 - Não vamos recomeçar com isso agora.

  O silêncio se instala com facilidade não é de hoje, desde a criação da linguagem que tudo leva à quietude. Quem sabe um meio de equilíbrio do Céu, que achou pretensão o Mirandola dizer que o homem não tem regra estipulada. Deus às vezes quer regrar a vida a regá-la.

  Na saída do edifício, o homem seguiu a mulher passageira. Porta abriu-se com brutalidade, feriu o peito com o sopro da despedida. O rapaz estático com a parte sua se esvaindo.

 - Por que partes?

 - Porque sou parte sua.

 - Então, qual a lógica?

 - Não se pode debruçar onde há vazio. Sou o vazio que passa.

  E como mágica, milagre ou destino, tudo se fez dolorido, casto de alegria. Mas o vazio não sente falta de sentido, não carece de lógica, menos ainda de um teimoso que espera supri-lo. 

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O que pra mim não tem valor

O que certa vez disse um velhote amigo meu, com soluços de embriaguez entre os comentários:
- Quê... pra você não tem valor, meu filho?
- Não sei... acho que sentimento ruim.
- Não, tem ninguém te ouvindo. Bem sabe que o álcool deixa letárgico, não sem escrúpulo.

domingo, 9 de agosto de 2009

Chácara, peixes e olhos.

  Se tudo fosse tão simples, que toda a imensidão virasse chácaras. Se tudo virasse a simplicidade de uma cidadezinha do interior, onde os peixes nomeiam; Mais do que qualquer coisa eu odiei o meu amor e amei o meu ódio - seja lá o que for isso, e se possível for.

  Primeiro cravei a faca em meu peito, enquanto ela olhava; cortei-me os pulsos jorrados, ao tocar de suas mãos em minhas coxas; torpi-me tão somente com o fitar; com o alisar das madeixas minhas que agora tomavam a cor rubra. O velório foi simplório. Mas o que de fato o leitor vai querer saber é o que tinha eu em meus bolsos. Onde tenho de si o meu próprio. Brilhante esmeralda. Trouxe pra mim a única coisa que furtei-lhe em vida: os olhos. Tirei-os, um de cada vez, indolorosamente. Com as mãos sujas de seu suco, embebidas de palavras sem nexo. Assim como as que profiro, melhor, as que escrevo. Imaginem comigo, seriamente, o sangue escorrendo nas vestes e a cada centímetro percorrido deixasse escrito algo, como me era lindo.

  

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Banco de sacas

Daqueles, "hoje afrouxam-se muito, tiram mão". Era meio assim que aos barrancos, ía encostando de quina em quina, atrás de bar pra repartir com o santo da vez. Repartiu a maldade da quentura, golada seca e forma líquida, sei bem que antítese não é bem-vinda, mas essa me é explicativa. Dava socos no ar, meio raivoso, mas escondia uma foto da família passada, que tinham por lá sua mulher e os dispensáveis filhos. Tinha amor verdadeiro pela moça, enxia os olhos ver a figura sorridente da foto. Derramou algumas lágrimas, outras caíram no copo meio vazio, foi descendo a rua, passou a mendiga bonita, pelo menos depois do bar.
Foi pra casa com a suja e falou pra esposa que queria as duas, ela aceitou e virou pro lado. Rendeu o cheiro da suja, que logo foi sacar-se de todos os bens, un relógio manual e uma Tv onde os filhos se entretinham. A suja foi embora, levou algumas crianças que não deram por falta, e estão alimentando direitinho mais três, porque a cirrose do papai o está matando.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Num trem qualquer, vago e rápido.

Rápido e quente, foi o tiro de disparada. Disparei, esperei a morte me chegar sussurrada e bem calmamente o dono-da-verdade me viu de soslaio.
Nada mais se resume em poucas palavras.
Apenas o que vivi de bom, podem ser ditas em breves segundos: "eu não vivi."
Desde lá, sou eu quem lhes tira o que há pra se viver.

domingo, 7 de setembro de 2008

Da minha vida só trago seus olhos no bolso.

Se tudo fosse tão simples, que toda a imensidão virasse chácaras. Se tudo virasse a simplicidade de uma cidadezinha do interior, onde os peixes nomeiam; Mais do que qualquer coisa eu odiei o meu amor e amei o meu ódio - seja lá o que for isso, e se possível for.
Primeiro cravei a faca em meu peito, enquanto ela olhava; cortei-me os pulsos jorrados, ao tocar de suas mãos em minhas coxas; torpi-me tão somente com o fitar; com o alisar das madeixas minhas que agora tomavam a cor rubra. O velório foi simplório. Mas o que de fato o leitor vai querer saber é o que tinha eu em meus bolsos. Onde tenho de si o meu próprio. Brilhante esmeralda. Trouxe pra mim a única coisa que furtei-lhe em vida: os olhos. Tirei-os, um de cada vez, indolorosamente. Com as mãos sujas de seu suco, embebidas de palavras sem nexo. Assim como as que profiro, melhor, as que escrevo. Imaginem comigo, seriamente, o sangue escorrendo nas vestes e a cada centímetro percorrido deixasse escrito algo.

sábado, 30 de agosto de 2008

A mesma prosa do homem feliz

Dera-me ser feliz por tempo limitado, sabendo seu fim e início, para saborear o seu meio. Minha tristeza é branda e permanente, por outro é felicidade, faço feliz aquele que tira de mim o meio que saboreio; eu fui a voz de algo bom, de algo que se quebrou, cedido ao agudo dos gritos. Veio de mim a vitória das palavras que não são ditas, que são, outrora, engasgadas pela mulher que tem os nossos corações, por não ter mais a quem. Aqui está o beijo que tanto quis de mim; buscai-vos. Nas ruas, procurado pelo caroneiro. Aquela mesma gestação do filho perdido. Em algum lugar eu encontrarei meus descendentes mortos. Onde a minha finita felicidade me deixou o canto de espera, atrás do mesmo prospecto da gota d'água. Fui comprar estórias, com as prateleiras abarrotadas, escolhi a dedo a que me aturdiu; por Deus.(!) Se alguém me tiver, que me oprima nas mãos de suas escolhas, nela deitarei todo meu escravo. Siga-me neste caminho onde a única certeza que terá é a tal da infelicidade, punida e brilhante aformidade. Não se tem noção de sua extensão, nem de sua (?). A minha é de superfície, dilatada pela profunda vontade de aprofundar as coisas. Eu procuro lugares onde achar o que não sei procurar, a criancinha que revoga seu bichinho sem levantar-se. Não tenho, porque minha vida foi tirada de mim; deixei-a no momento em que a primeira frase escapou.

- Tão somente a noção de que minha carta estava terminada e a vontade que sempre tive foi consumada: a minha morte descrita num pedaço de papel que meu amor procurava. -

sábado, 23 de agosto de 2008

Não as conheço como me conhecem

Foi que eu me vi na situação de interrogado, perguntaram o que me recordava e eu soletrei seu nome, aquele sonoro nome que me vaziava. Sempre me ensinaram a dissimulação do que pulsa, no mesmo instante engasga-me. Passando na frente daquela vendinha onde sentam os vividos e os vivãs; foi ter com o céu. Notaram-se os olhares alheios a situação intimista. Da coesão mais que corriqueira, de pôr a tocar a mesma sinfonia, mesma nota, sustenido ou branda. Enquanto remoía o amor que tinha falado à falsa amada, no qual seu coração eu ganhei sem querer. Não existem enganos no meu romance, não há de aparecer nenhum amor-fantasma para assombrar-me no leito do novo, há, sim, de haver restos, sobras e migalhas dos velhos, mas estes serão queimados no altar em que eu mesmo fabriquei enquanto ditava - baixinho - no canto da orelha o amor. Cá está a voz, esta. Devero, sempre esteve. No mesmo quarto, caverna, onde deitei aos braços da montanha, seu leito; as virtudes me foram tomadas e cuspidas em face, língua ardida e venérea. Eu finalmente vir-me-ia na calmaria do ódio, mas aturdi-me. Tão somente a falta me foi o bastante, tampouco a rotina de olhar o mesmo quadro, na mesma hora em que te querer rasgar. Com licença, Poética. Sem ela seria um mero papel brando de voz.
Mas a mesma branda voz que ecoou e escorreu nas paredes das cadeias. Conhecer-me-iam se não tão difícil fosse me alcançar nas rochas.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Brincadeira de Bicho

Eu ouço as mesmas notas que me deprimiram antes, provando que as venci, que a ferida já se foi, mas ainda persistente tento tocá-la com o dedo infantil. Perfurando a razão de querer ser feliz, indaguei à lua se ela me daria a chance ao que os meus prometem às suas. Disse-me estar cheio de recados às donzelas - debruçadas no parapeito-terapeuta. Escolhendo a dedo as virgens que choram, aos lagos feitos na discórdia do não-querer. O que ele me disse. (?) Não mais obstante, ele começou.
Precisou reverter-se. Não teve a chance de olhar nos peitos daquela que prometeu dar o Céu e as estrelas, não abriu o sutiã estrelar; o universo à ser descoberto. A matéria-negra, não mais.
Descobriu em si próprio o monstro-debaixodacama. Escondido em seu coração, o mesmo assustador que não gosta da luz dos olhos daquela donzela, mas corre atrás dos seus anfíbios. Com a rede sedenta, esperando o primeiro grito de socorro do coração silenciado pelo seu falar forjado. Diria assim:

Carta a mim.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Voz sedosa e peitos de vadia

Eu quero a vadia dos amores, pra manchar o coração com as feridas que me foram postas, e eu conivente e sádico não percebi que eram em mim. Tornou-se e retornou-se, coração dos olhos juntos, viu amor que não existia. Pôs-se em olhar arregalado e provocou a vadia com o sorriso de preço. Orações engasgadas e línguas inintendíveis com os sotaques da variedade amorosa, ou do ódio iminente. Eu gritava aos céus que não queria mais amar, que me tirasse de lá. A ausente sensação, me deixara antes de encontrar-me. Eu tivera a qualidade de sempre me deprimir, com os pensamentos dos débitos, procurei o sofrimento e ele acomodou-se. Eu desejei amar todas, mas de fato não sei amar, de tanto querer, me vi na situação da impotência de nunca poder dizer eu te amo.
Diriam-me que sou molestador, com os adágios prefigurados às mulheres; não desmentiria. Queria sussurrado o amor escrito e rabiscado o amor de atos.
Sempre que vierem me dizer se quero uma voz, direi que quero a do sentido, aos peitos da mesma vadia que falo com dor onde não se pode avistar.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Monólogo do pai da mulher-mais-linda-deste-mundo

Ela nasceu e a vi com os primeiros olhos, sua formosa noção de sorrir, seu choro maestrado pelo doutor. Saí do hospital, aos braços de minha filha que tanto sorria, risada gostosa, contagiou a mãe.

Curiosa, foi ter em todos os cômodos uma história pra contar ao amigo imaginário, disse, “voei mais alto que qualquer pássaro já voou”. Nesses instantes estava eu de espectador, sem controle de fala, quieto e inerte à situação. Qualquer ranger de portas tirava-me a paciência, estava em um espetáculo.

Mãe começou a não me ver mais. Pegou-me ao lado da criança deitado, dormindo; Bastava a criança sorrir e o pai ia atrás de qualquer que fosse sua vontade.

Cresceu mais e tornou-se formada de curvas e olhar lascivo, eu a trancafiei em casa, não saia por nada e pura iria ser até que a morte me levasse, antes disso nada a usurparia. Sua mãe olhava com um olhar que eu não entendia; meio cerrado e odioso. Escarniava a qualquer sinal da bela filha. Ao sair pra trazer um de muitos dos agrados à menina, cheguei e o silêncio roubara-me o sossego. A porta de minha menina violada; já aos infernos entrei e lá estava. Jorrada de sangue minha perfeita filha jogada ao chão com o peito perfurado pela mão materna. A mãe com o olhar satisfeito, ao me ver começou a despir-se e eu pasmo, dei-lhe um juntado à fuça. Ainda com fúria, matei-a aos ódios; sussurrando a vida que lhe restara, me disse, “matei a mulher que tirou você de mim, eu não deixo ninguém contigo, Bernardo, ninguém”. O último fôlego foi para dizer que me amava. Depois com a menina em meus braços ensangüentados, falei no canto da boca, nossas maçãs-do-rosto encontraram-se no pomar melancólico da morte. Ela ainda bela com os olhares fixos no pai, que lhe trazia a felicidade a cada fitar fugaz. A vida levara minha única vida. Debrucei na garota de sangue. Dormi em teu leito e hoje conto a estória, esta, ao lado dos mesmos demônios que a tiraram de mim. Sou o pai da mulher-mais-linda-deste-mundo.

sábado, 19 de julho de 2008

Toda criança é inconveniente

Ela pulou do sofá, pensando não haver, ao tocá-lo, seus sonhos a deixaram. Tornou a subir no sofá, até o chão ceder, não cedeu. Então parou, estática na porta de vidro da varanda. Vendo os pássaros-maquinados cortando o seu, contra a brisa do chão. Pediu pro Sol a lembrança do rosto que não sabia ter. O mesmo pedido ao espelho que lhe retribui, em troca um sorriso sujo de leite.
São quatorze horas, seu pai foi comprar o almoço, enquanto ela pulava incessantemente, não sabia o porquê, mas falava ter ódio da terra. Quantos mais ela teria que saltar pra ser de fato completa, levava na cachola a obrigação destes. A inocente não parou em momento algum, até seu pai chegar. Com os pratos, em que se comiam com os olhos, sentou-se na sala de jantar, lambuzou-se com a macarronada trazida; Já jazida de toda a fartura foi ter com o mesmo Sol, que agora estava cabisbaixo. Fim de tarde ela o viu morrer na costa, onde ressurgiu como fênix, Lua.
Olhar fixado, pulou do abismo e caiu na estrada. Deixou bilhete: "Fui encontra-lo, deixei-me ir pelo Sol que me chamou."
Andou léguas, pulou as pedrinhas do caminho. Chegando na tal costa, encontrou: fitou a imensidão e ele com um sorriso na voz. Voltou caminhando, sem tirar o pé da terra batida, dizendo: "o amor não é o que procuro."

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Tentei cronicar

Comentários ríspidos e mentirosos, nunca teve amigos, de fato, teve muitas meninas, mas não cheguemos nesse mérito - porque este é de outrem.
Lá foi o menino destilado de palavras feias gritar na rua com os pobres meninos pobres. Pensava em: nada igual. Queria mais do que todos, menos que todos, e justiça, quando lhe fosse conveniente; na rua da avó morta, corria impetuoso, com os cabelos ao vento imaginava-se vilão. Com a donzela usurpada, de cócoras ao céu, resplandecente visão infantil. Inocência que assusta. A criança vivia ao prantos, para que lhe fizessem jus a tal brincadeira; o momento passou, somente, flutuou.
Tornou-se, viu no fim da rua o amigo, de seu lado a doce menina. Julinho possesso, vontade Possuir. Passou...Passou, comeu...Passou.
Na frente da casa de D. Melinda, que tinha um olho faltando e no lugar usava o do marido; Júlio, agora mais velho, veio pra brincar de médico; e de consultório, D Melinda não deixava seu quintal usar. Convenhamos que nosso leitor sabe que de nada adiantou. O rapazote chegou por de trás, duas aliás.
Na musiquinha que eu tanto tento cantar à vocês; fica o ensejo, mas não meu sucesso.
Passou-se mais, outros se foram, esses chegaram...
Julinho sentado na bera da calçada, roendo os dedos e mastigando os seus pensamentos.

Ele sempre quis ser assim, mas era gostoso. Então já viu.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Shakespeare não me ensinou a matar

Doído sempre me foi, não ter um cúmplice só meu. A luz acesa não vence a escuridão na nossa frente. Diziam para mim os fieis, que de nada fazia sentido o medo incrustado no meu sorriso. Eu olhei pra ela, e não a vi companheira. Estava só. Amando só. Pensando nela: acompanhado. Milhares de fitas envolveram a brisa do andar, donzela caminhara. Donzela me amara. Ama ainda? Eu sou romancista há muito, venho ter com os sentimentos desde que olhei para eles. Ela tinha que ser minha, tão somente, minha. Ou pelo menos mentir pra mim, dizendo ser. Não; faz questão de olhar à todos, sorrir à todos e, o pior, amar à todos. A minha heresia foi amar sozinho, ter nela todo meu adágio, sublime e torpe. Seja na manhã ensolarada, luar de madrugada ou entardecer do meu sono. A musa, não mais minha, já tinha outros amores. Outros afagos, prelúdios de noites de amor. Violinistas, machetes, liras, harpas...Ao som orquestrado pelos seios da mulher que amo. Assistindo a tudo isso, meus olhos converteram-se em chamas e miséria. A seca de tempos atrás se fez contemporânea. E tudo que tinha vida, tornou-se em morte, não morto. Morte em si. Fez uma arma em minhas mãos, o soslaio olhar da donzela me achou. Ceifada de todo aquele cabimento; ela suplicou. Não consegui segurar-me: caí aos seus pés, submisso a tudo aquilo. A face com desejo, expressa para todas as mulheres. Aos homens coube a luxúria da solidão. De mim fez-se cinzas, de meu coração um púlpito. Antes mesmo de subirem ao palco, o furei. E todo o sangue estava manchado de dor, mas meu último sorriso foi dela. E ela retribuiu. Depois foi ter com outros rapazes.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Narciso no Olimpo

Peço licença aos felizes,
Licença de novo. Saia, por favor. Ao voltar espante-se ao ver-me no canto da sala vermelha, com os olhos virados e pele estranhamente pálida. Ao me verem: Saiam, de novo. Mas voltem, quero relutantemente ver vocês com os olhares velhos. Espantaram-se? Saiam. Voltem. Quero que a pena atribuída a mim, seja sem razão, com naturalidade. Sem surpresas.
Fitem-me sem explicar-me.
Com o amor deitado ao meu lado, também morto, abraçado comigo. O romance de voyeur, com os olhares abruptos. Escreve e alterna o fitar interessado. "Não me faça cometer o mesmo erro. Só me diga quando, quando vou poder tê-la ao meu lado sem erros ou acertos, ou até quando, eu vou ter que escrever as nossas aventuras, a cada acontecimento me passar o adágio de uma possível história de amor.". Lágrimas vieram a seguir, com um toque sutil de dificuldade, o som ambiente e a escuridão da sala, trouxeram a amargura de um momento a mais.
Não terminado, obstante ao rigor do instante o coração brincou com o carpete, o romance deitou-se.
Todos viram a peça de Eurídice, com suas dádivas a mão. Tebas deixou o conflito com Hércules, pra me assistir. Meu desejo acabou em suas frentes, enfrentei. Hera me deu alento, acariciou-me os cabelos.
Zeus, prepotente, pensou em si. Hera me levou, ao seu quarto, fez-me deitar. Fizemos amor. Ela disse que me amava. Meu coração voltou em si. Agora, na garganta uma forte mão lúbrica.
Saí com a marca de uma amante divina, não a quis mais, meu coração mortal pertencia. Não mais: a ninguém.
Eu fui Zeus, ao menos na cama, ao menos uma vez. Narciso era eu.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Disseram que eu não sei escrever romance

Não me deixe assim, sem palavras pra dizer ou qualquer gesto pra escolher. Aquelas mesmas, rasgadas ao saírem, sem eco ou até mesmo sôfregas. A aurora de mim destacada do coração, dilacerado este por desejar a incógnita a frente, abismo ou cachoeira. Desprezava-me, abaixava a fronte e dizia as mesmas, sempre, sem dente, sem lábios; com, mas secos.
De frente, adiante, exitando tudo e nenhum gesto meu, falando carícias e passando em mim as sérias. Serias tão digna. Inclinei o rosto, a música estridente do corpo em conflito, gemido.
Agora só cinzas, que nunca mais regozijariam da vida novamente. Fênix teve seu fim, lento e gostoso. O peixinho dourado com memória fotográfica. Olhou pra mim, sentiu mágoa até seu fim, minha feição de bom moço, de costas, e testa franzida ao virar para o aquário vastidão desconhecida do pobre nadador, que na cachola só meu pesar tinha.Vi meu amor chorar as lágrimas falsas que amei ver, a mentira me interessou e fiquei contente ao vê-lo.
Eu não sei dizer sem mim, por isso não sei escrever romance e se sei é só pra ganhar em troca a noite de alguém. Seja poesia, mas que seja concreta enquanto dure.

sábado, 21 de junho de 2008

Voltei a matar

Descasado. Sem compromisso com os lábios, apenas de olhos nos olhos-baixos das mulheres que por mim passavam. Na memória só uma, mas comigo, lá; comigo: nenhuma.
Eu queria só pra mim aquela dor, só pra mim, que fosse auto, não provocada.Não-provocada. Que ninguém fosse culpado da minha parafilia. Minhas síndromes, suma, minhas. Meus torceres e piscares frestados daquele sol rubro de fim de tarde. Com as afiadas a mão, e teu corpo lá na cama esperando-me, com o suor. Deixei-a, a linda, em cima da cabeceira espreitada de segundo a segundo com canto do fito. Conhecia o morto, com as mãos que ainda eram impedidas, com as antigas mordidas. Ela sabia. Não fugiu. Abriu os braços e me disse que estava pronta pra receber-me, seja, encardido pelo amor festeiro, que no mesmo dia consumira meus doces da memória, mas esqueceu um. Aquela raiva voltara, bateu a porta e entrou, porta aberta. Caminhar devagar, não parecia ela. Chegou no peito, pulsante e dolorido. Encostei na lâmina e olhei o reflexo da escuridão, que inclinava a cabeça. Feri, o primeiro correu-se, a gota incrustada no meu tórax, também começou a jorrar sangue; Elas chorosas gotas de sangue, que corriam do corpo meu ao corpo dela. Sem permissão, começaram.
No dia anterior a vi. Com outro, negando e sorrindo. Sorriu à todos na sala. A faca pediu permissão, não foi descortês sua maleficência. Voltamos ao agora.
Sublime amor que ela dizia no canto do meu ouvido, intercalando gemidos e respirações lascivas. Ela infiltrara-se. Também, com o amor da minha lâmina. Mostrou-me suja. A cabeça saía do lugar, tempo em tempo, tão somente para procurar de volta a vida que fora tirada. Mão a mão. Faca a faca.
O último beijo. Com os lábios roxos, de ambos. E com o último suspiro. Este: louvor meu.

sábado, 7 de junho de 2008

Meu mero amor travestido

Entreaberto os espelhos, refletiu a face obscura de uma tocaia. Com o peito cabisbaixo pela falta de amor. Minto, pela falta não, por ser como era: cheio de batom, com cílios grandes e sombra profana.
Nos palcos este amor dançou; com garotas ou garotos, juntos ou não. Se depravava aos outros amores-vigias, com os olhares pequenos, frestados e medrosos.
De mim herdaram somente o corpo d'alma.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Minha estória gargulesca

Chamei o elevador, ele descia estranhamente mais lento, parecia desfrutar a cada andar que passava, com os perfumes de suas viajantes. Ele chegou esnobe, com a porta emperrou, mostrando.
Subi ao meu. Sentado ao relento dos pensamentos, interrompeu-me. Com o olhar tagarela, me puxou ao hall, com o mesmo soberbo elevador de antes. Dentro um homem garboso e sem graça. Virou pra mim e disse que não me amava mais. Indaguei a causa, conseqüência, e qualquer que fosse a pergunta, nexo ou sem. Derrubei à ela meu coração, que da boca usou de saída. Saiu encharcado da sovina amorosa e manchado daquele mesmo remédio que o fez sorrir.
- Você me amava enquanto estávamos juntos?; com palavras cortadas.
-Não...
O descaso e o sorriso largo na face da moça tirou-me o chão. Um abismo que não cavei, tomei pra mim.Tornei a ela, e a paixão só crescia, não cessava. Deixava mais profunda a ferida. Abri a porta. Ela apontava pra ele e dizia convicta: - Esse que eu amei, e amarei.
Tornara-me um elevador, que de tempo em tempo, tão somente, saciava o amor pelas donzelas que adentravam seu coração, passageiras, as mais belas. Aprendi a amar seus amores, porque dentro de mim fizeram as loucuras que tive de ver. Agora não mais, porque refugiei-me no dos outros; subi ao último andar do prédio antigo. Olhei para os lados, muitos cúmplices. Antes de mim. Diante, também. Todos à mercê de um respirar mais longo, ou adágio saudosista da boa época. Encarei o chão. Ele também me traiu. Abraçou outros e não a mim.

Nada sou...Um gárgula namorador de gotas de chuva. E, ainda...O Sol vem me privar.

sábado, 24 de maio de 2008

Malabarista de facas à plateia de arqueiros

Subiu no palco. Nariz sobre todos e olhar fixo no fim do último corredor, nem o passageiro medo tirou a disposta felicidade de estar no centro, no alvo.
Foram preparando as flechas, fintadas de fogo, sabiam que algo iria ocorrer, poderia ser de morte. Os violinos começaram, seguidos do suspiro ensurdecedor do malabarista com as lâminas a mão. Dispôs, aleatoriamente, com tão esmero que a platéia pensou que o show começara. Eram blá de lá, e cá: resmungos de bebê. Os trompetes anunciaram: começou a artilharia. Eram sinais de fogo em todo o teatro, o garoto regendo a orquestra, com a batuta afiada. Queria se fazer amar, mas a bailarina, seguinte, tirou seu tão mistério. O espectador não era mais o teatro, a levara pra cama. Enquanto sonhava com a transa, a platéia voluptuara-se aos pares e ímpares, sobre tudo em vários.
Uma faca caiu, cortou o véu da bailarina já quase despida com os olhos, o malabarista apreensivo, com fixo fitado na moça. Resolveram: "levaremos todos, conosco." O salto da dançarina, o jogar do artista. Pinturas ao ar. Impetuosos e flechados: olhares de flechas.

Fecham-se as cortinas. O show tornou-se, atua confidente.

Rasgação de sedas

Rasgação de sedas